Testemunhos dos Missionários
Testemunhos dos Missionários
 

 

Testemunhos dos Missionários....

Gavião Zoró




A LUZ CONTINUA BRILHANDO

Paacas Novos


“O povo que andava em trevas viu uma grande luz; e sobre os que habitavam na terra de profunda escuridão resplandeceu a luz.” (Isaias 9.2)


Há aproximadamente 50 anos a MNTB iniciou contato com o povo Pacaas Novos através de seus missionários, alguns dos quais já estão com o Senhor. E através de seus testemunhos, este povo viu a luz do amor de Cristo brilhar em suas vidas.

O Povo Wari, como eles gostam de ser chamados, no passado era um povo que vivia nas práticas canibalescas, isto é, se alimentavam também de carne humana. Como Deus amava muito este povo a ponto de entregar Jesus para pagar o preço pelo pecado deles, Ele enviou alguns missionários que deram a sua vida para que eles conhecessem o amor infinito do Pai.

Após quase meio século de trabalho exaustivo, hoje há 12 igrejas estabelecidas com lideranças autóctones. Nas igrejas do Sotério, Santo André, Bonsucego, Laje velho e Ribeirão existem trabalhos com as mulheres durante a semana, onde elas se reúnem para orar e estudar a palavra de Deus. O trabalho com crianças, em algumas igrejas, é realizado separadamente, dos horários dos cultos. No entanto, em outras aldeias tem um lugar específico para elas se reunirem, pois o número de crianças é grande. Os homens se reúnem dois dias na semana com o propósito de orar e estudar a palavra de Deus, e isto os têm fortalecido muito e a igreja tem crescido.

Todas as igrejas indígenas têm os seus pastores e diáconos. Os pastores ficam encarregados do ensino da palavra de Deus, da visitação aos crentes e da administração. Enquanto os diáconos ajudam a liderança da igreja. Existe hoje cerca de 700 crentes Wari. Em média por ano são realizados cerca de 20 batismos. Durante o ano é realizado duas conferências para líderes das igrejas, onde os pastores estudam capítulos de um livro da palavra de Deus ou de um assunto que eles previamente escolhem. O período das conferências é realizado no mês de julho e no mês de dezembro, em aldeias diferentes.

As igrejas estão sendo firmadas na Palavra, pois um dia a luz invadiu e hoje continua a iluminar estes corações. Louvado seja Deus pelas vidas que ouviram Seu chamado e vieram até aqui trazer a Palavra que liberta. É muito gratificante e precioso ver a obra que Deus tem realizado em cada vida. Mas o desafio prossegue, pois o nosso alvo é terminar o Novo Testamento e cremos que Aquele que começou boa obra vai continuar capacitando nossos amados irmãos que têm trabalhado arduamente na tradução. Continuemos orando, pois a obra continua.

Maria Tereza Mantovani, missionária da MNTB entre o povo Pacaas Novos - RO



Aquela foi mais outra longa e cansativa viagem subindo o rio Içana em direção ao nosso lar, entre o povo Kuripako....

Povo Kuripako
Miss. Marcelo e Ruth

Por quase duas semanas a pesada canoa feita de tronco de árvore, também denominada de “bongo”, deslizara suavemente sobre as águas, levando, quase no limite da sua capacidade, suprimentos para vários meses.Aquela jornada marcaria o meu retorno ao trabalho missionário, após um período de ausência. A minha querida esposa não pôde me acompanhar desta vez. Por motivo de saúde ela ficara, juntamente com os nossos três filhos, em Manaus para submeter-se a um longo tratamento. Sentado quieto na canoa, enquanto observava um grupo de índios que viajava comigo, alternando-se em narrativas de proezas das suas caçadas, todas pontilhadas de alegres gargalhadas, vinha-me à mente a recordação das lágrimas da minha Rute naquela difícil despedida no porto em Manaus: “Querido…”, sussurrara ela entre soluços, “…sei que sozinha e ainda me convalescendo, será um pouco difícil nestes dias, mas sei também que a graça de Deus me fortalecerá! Nós ficaremos bem! Cuide-se bem e vá!” A expectativa dos meses de separação já produzia um indescritível sentimento de saudades, que só era ameniza

do por duas certezas: (1) estamos no centro da vontade de Deus, portanto Ele cuidará de nós e nos conduzirá em triunfo, (2) nos encontraremos no meio do ano, tendo os corações mutuamente fortalecidos em amor. Repentinamente, senti o soprar de uma suave brisa de alegria invadindo o meu coração, enquanto ecoava na minha mente as sábias palavras de um missionário de cabelos brancos: “Marcelo, há um lema que rege a obra de Deus: Sem grandes sacrifícios não há grandes vitórias!”À medida que penetrávamos no sombreado curso do rio Içana, com a selva se adensando cada vez mais ao nosso redor, crescia também no meu coração este espírito de entusiasmo e confiança em Deus pelo privilégio de servi-Lo com toda a minha vida. Confesso que não foi difícil descobrir que o ânimo que me impulsionava rio acima não tinha origem em mim mesmo, mas me era comunicado ao coração pela inconfundível e doce presença do Senhor bem ali ao meu lado. Uma presença sensível, diante da qual fugira todas os medos, pensamentos superficiais e inquietações. Então compreendi claramente o significado desta promessa: “A paz de Deus que excede todo entendimento, guardará os vossos corações e as vossas mentes em Cristo Jesus” (Fil. 4:7).Prosseguimos intrepidamente. Após passarmos uma curva do rio, avistamos uma área repleta de enormes

rochas pontiagudas recortadas pelas águas escuras do Içana. Estávamos nos aproximando da “Tsepã-hiipa-lico”, uma das perigosas cachoeiras que marca fronteira entre os territórios Baniwa e Kuripako. Ao tentarmos transpor dificultosamente aquela cachoeira, tivemos um instante de horror quando fomos quase tragados pela fúria das águas que arremessavam violentamente nossa canoa sobre as pedras. “Oh Deus! Ajude-nos, Senhor!” Bradei em profunda aflição, agarrando-me nervosamente às bordas da canoa! Neste instante divisei os índios acenando freneticamente as mãos e gritando desesperadamente uns para os outros. À proporção que a água invadia a canoa, um terrível pensamento assaltava a minha mente: “Estamos em grande perigo e vamos alagar na boca desta terrível cachoeira!” Repentinamente, me veio também uma estranha sensação de resistência demoníaca, salpicando a atmosfera do lugar e intensificando nossa angústia. Mas, naquela mesma hora, a Bendita Presença que nos levara triunfantemente até ali, nos socorreu e nos livrou do perigo. Com o coração batendo aceleradamente, lembrei-me do exército de servos de Deus que estavam intercedendo por mim naquela hora. “Querido Senhor, muito obrigado pela Tua misericordiosa proteção!” E com os olhos marejados pela comoção, arrematei: “Eu creio que Tu levarás a bom termo o teu plano maravilhoso para as tribos da ‘Cabeça do Cachorro’. Muito obrigado por fazer parte deste Teu plano!”Por quanto tempo ainda as dificuldades deste mundo impedirão que muitas tribos perdidas ouçam da inefável graça de Deus? Por quanto tempo ainda nos intimidaremos ante as regiões sombrias onde impera total ignorância do Senhor Jesus Cristo? Será que nunca nos ocorreu que o Deus Todo-Poderoso vibra de entusiasmo ao ver a Sua Palavra alcançando os confins deste mundo? Será que nunca nos ocorreu que a nossa vida só tem sentido, quando se torna uma resposta aos grandes desafios missionários do coração de Deus? Estes pensamentos me abalaram e me fizeram perceber a insignificância da minha vida em face da grandiosidade da obra de Deus. E, orando baixinho disse: “Usa-me, Senhor, para produzir a Tua glória neste lugar, e para estabelecer o Teu reino nas tribos do vale do Içana!” Senti uma renovada vitalidade brotando dentro de mim e coroando minhas feições de alegria uma alegria que não era apenas minha!
Passado o clímax da emoção, um índio me informou que parte da nossa preciosa gasolina tinha sido tragada pelas profundezas do “Jurupari” (cachoeira do diabo na língua nativa), porém o restante da bagagem, embora molhado, estava intacto. Também ninguém se machucara no incidente, exceto um índio que caiu sobre as rochas, porém nada grave. Isto era um milagre! Exultei de alegria e de gratidão ao Senhor! Sob os olhares atentos dos meus “marinheiros” louvei ao meu Senhor com um hino na língua indígena, enquanto prosseguíamos.
Ao nos aproximarmos das aldeias Kuripako exauriu-se todo o nosso estoque de gasolina e ficamos à deriva. Como estávamos numa grande e pesada canoa, prosseguimos com dificuldade num penoso processo de remar lentamente, contornando as inúmeras curvas do rio. Nisto o tempo tornou-se inclemente! O sol retirara a sua luz desaparecendo sob escuras nuvens! E, em questão de instantes, uma pesada chuva se abateu sobre nós. Afundamos vigorosamente os remos na água e resolutos avançamos contra o temporal, até finalmente atracarmos no porto de São Joaquim, nosso destino final.A notícia da minha chegada rapidamente se espalhara por toda aquela região. Ao me aproximar da aldeia, todos os índios correram em minha direção para me saudarem com um firme aperto de mão. Em seguida, um alegre e barulhento cortejo conduziu-me até a minha casa, localizada na parte mais baixa da aldeia Keradaro.

Aquela tarde fria alimentava ainda mais a saudade da minha querida esposa, enquanto o enorme desejo de chegar em casa fazia desvanecer o cansaço daquela longa jornada. Mesmo sabendo que a minha família ficara para trás, assediava o meu coração a viva lembrança da minha querida aguardando ansiosamente a minha chegada, e nossas três crianças correndo a me abraçar! Porém, ao entrar, a cabana estava silenciosa e vazia! O nosso fogão a lenha, exalando aquele saboroso cheiro das sopinhas quentes da Rute, agora estava coberto de pó e sujeira de morcegos. A cobertura de palha da casa, apodrecida, permitiu que a chuva, insetos voadores e hordas de morcegos entrassem produzindo enormes estragos. Subitamente, percebi o que significava estar tão longe da família. Seguido pela comitiva que me recepcionara, afastei-me da casa por um instante e num gesto quase imperceptível suspirei comovido: “Oh, querida Rute, como eu gostaria que você estivesse aqui comigo!” Lágrimas quentes começaram a rolar na minha face, confundindo-se com a fria garoa que ainda caía sobre nós. Nisto acudiu-me um quadro de imensa ternura: Alexandre, um dos anciãos da aldeia acercou-se de mim, colocou sua mão sobre meu ombro e começou a orar com voz embargada: “Você, meu Senhor, Você, meu Deus santo, agradeço por trazer o nosso pai novamente para nós. Agora o meu coração está alegre porque posso ouvir a Sua Palavra da boca deste nosso pai…”. Foi a primeira vez que ouvi na língua nativa esta expressão carinhosa de tratamento para comigo. Com o coração abrasado e incandescido pela emoção, segurei-o pelo pescoço, puxei-o para junto de mim e choramos convulsivamente num misto de alegria, tristeza e saudades.Assim é a obra missionária! Sozinho aqui no mato tenho aprendido grandes lições de dependência de Deus. Tenho aprendido que uma vida fácil que a si mesmo não se negue, nunca será uma vida de excelência nas mãos de Deus. O meu grande ânimo é saber que foi Ele quem me colocou onde estou e como estou. Jamais procurei este lugar e posição para mim mesmo, todavia não tenho coragem de abandoná-la. Do âmago da minha alma eu me deleito no fato de saber que o Senhor fará a Sua grande obra na vida daqueles que habitam na “Cabeça do Cachorro”, alto rio Içana, confins do Brasil.

 


Conheça um dos pioneiros do trabalho missionário...


Missionários Assis e Maria EliDia 04 de outubro de 1934, na cidade de Palestina, SP, nascia na família de Francisco e Adélia um menino que recebeu o nome de Assis Militão da Silva, o segundo dos quatro filhos. A sua infância foi de sofrimento porque além da pobreza, seus pais tinham sérios problemas de relacionamento. O pai não era salvo e sua mãe trabalhava muito para dar o mínimo aos filhos.
Apesar do seu sofrer, todos os domingos ela levava os filhos à igreja. 

Atingindo a adolescência Assis conseguiu um bom emprego nas Casas Pernambucanas, e ganhando dinheiro passou a experimentar os prazeres do mundo. Gastava tudo o que recebia, mas no seu coração restava um temor a Deus. Nessa época o seu pai já era salvo e a vida no lar mudou para melhor. Muitas vezes desejou entrar na igreja durante os cultos, mas não tinha condições porque depois de fechar a loja, embriagava-se e sentia-se indigno de estar ali. Aos 22 anos, estando sóbrio, assistiu a uma reunião de oração e no final seu primo, Henrique Hébeler, pediu que ninguém se esquecesse das reuniões de oração que aconteciam às 6h30 da manhã todos os dias. Assis, desse dia em diante, passou por uma mudança radical a tal ponto de participar de todos os trabalhos da igreja. Ainda queria mais: dedicar-se sem reserva de domínio e fazer a obra do Senhor entre os índios. Chorava e orava pedindo que o Senhor o aceitasse por Suas misericórdias. Uma colega, Diva Bueno, lhe entregou um folheto do Instituto Bíblico Peniel. Foi a resposta de Deus, e em pouco tempo lá estava se preparando para ir onde Deus quisesse. Em janeiro de 1959 iniciou o seu treinamento. Lá Deus preparou sua companheira com o mesmo objetivo, Maria Eli, e se casaram em 1962. Após muitas lutas e milagres, puderam chegar à tribo Pacaas-Novos em 1963. Tempos difíceis os aguardavam: sem sustento fixo, muitas malárias, esposa perdendo nenê, aprendizagem da língua e cuidando da saúde dos índios, com pouco conhecimento do idioma. E por falta de mais obreiros, tinham que ficar sem colegas na aldeia, todavia, Deus confirmava no coração que era ali o seu lugar.  “A perda do nosso bebê foi causada por muitas malárias sofridas e só após uma semana é que pude me levantar, tal era a fraqueza. Era a segunda vez que estávamos numa aldeia e a mais distante. Nosso colega teve que nos deixar e lá ficamos sem saber o que iria acontecer, a não ser que Deus estava conosco. No retorno esse colega quase morreu com uma crise de malária e o índio, que viajava com ele, foi forçado a aplicar-lhe uma injeção. Depois disso, Assis caiu com a sua primeira malária e aí Deus teve que

enxugar minhas lágrimas vendo o marido no fundo da rede e o sofrimento aumentava por não conhecer quase nada da língua. Sentia falta de alguém com quem pudesse compartilhar minha dor e orar por nós e conosco.  Num finalzinho de um dia, Assis desejou tomar um chá de erva cidreira, que ele havia visto logo que chegamos. Eu não sabia onde encontrar e ele me pediu fosse ao encontro dos índios e quem sabe poderiam me ajudar.  Na minha comunicação deficiente nada consegui e retornei triste porque, embora tenha usado todos os sinônimos que conhecia,  ninguém me entendeu. O marido suplicou que continuasse insistindo. Foi em vão de novo, mas o caso se transformou num zum zum zum para se saber o que eu queria. A noite chegou e sentia o sofrer do meu querido. Ele tinha certeza que se levantaria tomando esse chá. Horas depois, avistei  uma fileira de índios com sua luz à base de resina, chegando à nossa casa trazendo umas folhas da "íriva xanta" ( erva santa ). Deus usou uma das mulheres, que tendo estado num seringal, recordou-se de ter visto o maravilhoso chá. Foi tudo o que Deus preparou para levantar Seu servo.  Alguém poderia duvidar que erva cidreira sirva para cortar uma crise de malária. “O Senhor usa o que Ele quer e havia motivos de sobra para agradecer  a Ele e dizer aos queridos índios que estávamos alegres e era tudo o que podíamos falar em sua língua.”               
Com o passar dos 11 anos, Assis pode rascunhar a tradução de 1 Timóteo, pelo fato de dominar um pouco mais da língua. Contra os seus planos, Assis e esposa foram exercer outro ministério na preparação de novos missionários no Instituto Missionário Shekinah, MS. Iniciaram o ministério em 1975. Foi nessa época que, após 13 anos de casados, Deus deu ao casal uma bênção especial com o nascimento da única filha que se chama Gláucia.             
Por força maior, em 1980, foi solicitada a mudança para Goiás a fim de auxiliar o presidente Rinaldo de Mattos. Em pouco tempo ele deixou o cargo e Assis assumiu o lugar e atuou durante 15 anos e meio, residindo na cidade de Anápolis. Na ocasião deu uma assistência como pastor de uma igreja durante 13 anos.  Em 1988 passou a ser um dos promotores de missões, mudando-se para S. Paulo. Como em qualquer lugar, tem suas oportunidades de falar nas igrejas desafiando os crentes a fazerem parte de missões e não se cala quando se trata de Jesus.                
Tudo o que ele passou: alegria, lutas, perigos, não apagaram o amor pelos índios e desejo de estar com eles. Cada oportunidade de rever os irmãos indígenas e abraçá-los, confirma que valeu a pena ter servido a Deus ali e faria tudo de novo, se fosse possível.

Servir o Mestre, para ele é o maior dos investimentos nesta vida.

Maria Eli de Oliveira e Silva, missionária e esposa do biografado,que participou das lutas e vitórias com ele.

 




 A Perda de um amigo


Quem era José Mário para nós os missionários:ü  Amigo dos missionários.ü   Sempre nos cultos nos fornecia subsídios: amparan

Povo Karajá

do na linguagem e na maneira mais precisa de anunciarmos a Palavra.  Auxiliava –nos a entender os mistérios das crenças antigas. Esclarecia segredos dos costumes e em como apresentar o Evangelho de maneira compreensível.ü   Colocava-se ao nosso lado explicando aos karaja como era o agir dos crentes.ü  Testemunhava sobre Deus até mesmo para os companheiros de bebida (segundo o relato deles após o ocorrido)ü  Confiava e praticava o que lhe dizíamos ao aconselhá-lo.ü  Tinha recaídas provocadas pelos problemas, tensões familiares e étnicas. ü  Segundo o conceituado linguista e tradutor do Novo Testamento para essa etnia, David Fortune. “Ixati se tornou um dos melhores tradutores da Bíblia, entre os karaja”.


Sentimos a grande importância das orações da igreja por nós missionários, por muitas vezes nos sentirmos incapazes de, sequer, darmos notícias devido tão grave situação que por vezes vivenciamos. É com bastante pesar que escrevo aos amados da Igreja do Senhor Jesus. Pesar pela trágica morte de meu ajudante de tradução José Mário Ixati. Fato terrível ocorrido no dia vinte e cinco do mês de abril. Não escrevi antes devido a impossibilidade emocional que fiquei ao perder tão precioso irmão. José Mário Ixati chegou à Aldeia de Macaúba no mesmo ano em que eu, 1983. Trouxe consigo um grande problema, pois havia se separado da esposa deixando-a para trás em outra aldeia com os seus cinco filhos. Ixati já havia sido morador desta aldeia quando pequeno, mas não foi bem aceito por algumas famílias que sempre o culpavam de jogar feitiços e por conseqüência causar mortes. A princípio era muito apático ao Evangelho e aos missionários. Mas graças ao Poder transformador desse Evangelho foram ocorrendo mudanças em sua vida. Casou-se mais duas vezes, sua última esposa não era bem vista na aldeia, por haver quebrado as leis dos karaja, o que constituiu numa ofensa aos costumes o continuar tê-la como esposa. O ambiente em sua família era repleto de traição, engano, embriaguez, promiscuidade, a ponto de ver a filha precocemente engravidar e o enteado ameaçá-la de morte, tanto a ela quanto ao pai, Ixati.  Os comentários e ameaças cooperavam para pressioná-lo cada vez mais até que novo episódio aconteceu, um de seus sobrinhos também quebrou as regras da festa de Aruanã fazendo as tensões aumentarem.               

Ixati foi pescar sendo esta a última vez que o viram, com vida. Ficou desaparecido por três dias, vindo a flutuar somente seu esqueleto faltando uma das mãos e contendo um dos pés. Esta morte causou suspeita de haver sido realizada por algum feiticeiro ou desafeto. O fato é que estamos muito comovidos ainda e sobre os efeitos da grande perda que tivemos.


Hilda Dias - missionária entre o povo Karajá-MT